quarta, 22 de maio de 2024

O Paranapanema e a guerra dos paulistas

José Luiz Martins

Na Revolução Constitucionalista de 1932 Ourinhos e várias cidades da região, como Salto Grande, Santa Cruz do Rio Pardo, Chavantes e Ribeirão Claro foram palco de confrontos entre as tropas do governo e revolucionários paulistas que exigiam de Getúlio Vargas uma nova constituição para o país. O estado de São Paulo estava em grande desvantagem bélica e quase que sozinho nesse propósito, ficou cercado pelas forças do governo central em todas as frentes de batalha.

Em vários locais da extensão da divisa do Paraná e São Paulo pelas barrancas do rio Paranapanema, os paulistas enfrentaram contingentes federais vindos dos três estados do Sul. Foi artilharia pesada contra os constitucionalistas que lutaram na região com cerca de 8 mil homens contra 19 mil soldados das tropas de Getúlio Vargas. Saídos de Ourinhos e Chavantes os paulistas chegaram a ocupar as cidades paranaenses de Ribeirão Claro, Jacarezinho e Cambará. As forças de São Paulo utilizaram-se da linha férrea da E.F. Sorocabana para avançar com homens e armamentos até os outros locais da fronteira, onde o grande desafio seria transpor águas do Paranapanema como aconteceu em Ourinhos e Itararé.  

O Sul do estado de São Paulo era o setor mais desprotegido, contingentes federais vindos do sul se posicionaram na divisa de São Paulo e Paraná, próximos de Itararé. Ali as tropas paulistas não ofereceram resistência, não defenderam a fronteira e se retiraram para o rio Paranapanema em nossa região, abrindo uma grande extensão em território paulista para as tropas federais. Essa localidade acabou sendo um dos principais teatros de operações das tropas do governo Vargas.

A ponte ferroviária sobre o Paranapanema era um ponto estratégico a ser defendido pelos paulistas. O ponto mais próximo a Ourinhos onde houveram confronto entre as tropas, foi numa área na região do clube Diacuí, do lado paulista. Do outro lado do rio, em frente, mas do lado paranaense, local conhecido como “pedra criminosa” foi onde o contingente adversário sediou-se.

A resistência de São Paulo nas barrancas do Paranapanema por aqui não durou por muito tempo, as tropas gaúchas cruzaram o rio em Salto Grande, e bloquearam a ferrovia Sorocabana por onde as forças paulistas se deslocavam, houveram confrontos em outros trechos da ferrovia que era percorrido pelos trens blindados dos paulistas. O poderio de fogo das tropas gaúchas com mais canhões e homens foi obrigando os paulistas a recuarem e logo Ourinhos seria invadida. 

Documentos da Biblioteca Pública do Paraná revelam parte do que foram os combates na região: “…em 05 de agosto de 1932, próximo a ponte ferroviária sobre o Rio Jacaré, próximo a Jacarezinho, o General Paim enfrentou os paulistas e os fez recuar no final do dia 07 pela estrada de Ourinhos. Outros combates ocorreram ainda entre os dias 22 de setembro e 03 de outubro na Fazenda Laranjal e Porto Maria Ferreira em Itararé”. Outros relatos como o da ordem do dia da Coluna João Francisco dão conta do que ocorreu nas margens do caudaloso rio da divisa SP/PR: “O que foi a marcha e travessia do Paranapanema, o que foram os dias de inquietação e de sacrifícios, sob a inclemência do tempo, sem calçados, sem agasalhos, quase nus, parcamente alimentados, sob intensa e violenta fuzilaria na defesa da ponte metálica para Ourinhos, não poderei eu dizer, que horas tais vivem-se, sentem-se, depois de se ter vivido, mas não se pintam, nem se descrevem”. 

Vários ourinhenses participaram da luta na fronteira, em Ourinhos formou-se um batalhão denominado Teopompo integrado por moradores voluntários que serviram nas frentes de batalha em Ourinhos e Salto Grande. O avanço dos gaúchos ainda seguiu para Santa Cruz do Rio Pardo e Chavantes, que ficaram sob jugo federal até o fim do conflito com a rendição total dos constitucionalistas. No total, foram 87 dias de combates (de 9 de julho a 4 de outubro de 1932 – sendo os últimos dois dias depois da rendição paulista), com um saldo oficial de mais de 900 mortos, embora estimativas, não oficiais, ultrapassem 2000 mortos, sendo que muitas cidades do interior do estado de São Paulo sofreram destruições por ocasião das batalhas. As fotos retratam alguns personagens anônimos desse conflito, registrado através de muitas fotografias pelo fotógrafo Frederico Hahn, um dos pioneiros da arte de fotografar na cidade nos anos 30.

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