quinta, 29 de fevereiro de 2024

Prefeitura corta convênio com ADO e deixa pacientes apreensivos por atendimento

José Luiz Martins

 

Pessoas portadoras de diabetes que integram a ADO – Associação dos Diabéticos de Ourinhos e um grande número de usuários foram surpreendidas na terça-feira (30) por um ofício endereçado ao presidente da Associação, no qual a Prefeitura de Ourinhos se manifesta pela não renovação do termo de colaboração financeira com a entidade cujo contrato de vigência se encerrou no dia 31 de maio de 2022.  Apenas um dia antes de dar por encerrada a parceria firmada há um ano.

Em atividade desde 1993 a ADO presta atendimento médico especializado para milhares de diabéticos associados com suporte constante não só com fornecimento de medicamentos mantendo a disposição consultas periódicas com endocrinologistas, nutricionistas, enfermeiros e demais profissionais para o acompanhamento, orientação e tratamento especializado.

Com a decisão da prefeitura de cessar os repasses mensais que custeiam o atendimento, os pacientes que dependem dessa prestação de serviço pela associação estão apreensivos e cheios de incertezas. Temem que ao deixarem de ser atendidos pela ADO ocorra a precarização da assistência diferenciada, desestabilizando e fragilizando o atendimento de qualidade que vinham recebendo se o mesmo for feito pela Secretaria de Saúde do município.

O documento assinado pelo atual Secretário de Saúde, Donay Neto, dá por encerrado o termo de compromisso entre as partes em 31 de maio, sendo que a partir da quarta-feira, 1º de junho, a responsabilidade pelo atendimento ambulatorial aos diabéticos passou a ser da prefeitura.

Em um trecho confuso, sem apresentar motivos, com menção a várias atividades de assistência à saúde estranhas a entidade, como atendimento a “pessoas com deficiência física, abordagens e oficinas terapêuticas, acometimentos de síndromes, traumas”, serviços que não são prestados pela ADO, o documento menciona que a prefeitura assumirá o atendimento a pessoas acometidas de diabetes em Ourinhos em espaço que ainda não existe, mas, que já “está sendo providenciado”.

Segundo Júlio Cesar Benato, vice-presidente da ADO, ouvido pela reportagem do Negocião, a associação foi pega de surpresa, pois vinham tratando com a Secretaria da Saúde já há cerca de três meses os termos para renovação.

Nas negociações a ADO buscou ajustar vários pontos do novo contrato, valores, a questão de funcionários, entre outras, seguindo a orientação da Procuradoria Jurídica do município e Secretaria de Saúde. Depois de várias tratativas adequou-se o repasse de R$70 mil apresentado para análise da procuradoria, disse Benato.

“Havia um diálogo muito favorável com o secretário Donay, fizemos todos os ajustes recomendados e levamos para eles olharem, disseram que estava tá tudo ok certinho e iriam mandar para Procuradoria para dar o parecer, após isso seria fechado o contrato. Ficamos aguardando, mas na segunda-feira fomos surpreendidos com esse oficio comunicando o encerramento e a não renovação. Fizeram-nos de trouxas, deveriam ter nos comunicado com pelo menos 30 dias de antecedência para que pudéssemos nos precaver. Se já tinham essa intenção deveriam ter nos avisado, fomos enganados o tempo todo”, reclamou Júlio Cesar.

Na manhã da quarta-feira, por volta das 10h00, um grupo de associados da ADO, membros da diretoria e assessoria jurídica tentaram uma audiência com o prefeito, que acabou não ocorrendo. Uma reunião ficou agendada para a quinta-feira (2/6), às 11h00 horas na Prefeitura com o Secretário de Saúde e o assessor jurídico André Constante, porém foi remarcada para próxima segunda-feira dia 6 de junho.

 

 

SEM SOLUÇÃO A VISTA – Os desentendimentos entre a associação e a administração municipal se desdobram desde meados de 2021 quando a prefeitura diminuiu o valor da transferência, de cerca de R$62 mil para R$54 mil, ainda deixando de pagar valores correspondentes há dois meses que ainda não foram repassados.

Pelas redes sociais, o Prefeito Lucas Pocay afirmou que a administração tomou a iniciativa, pois a associação não estava cumprindo com o plano de trabalho, mas os diabéticos serão todos atendidos no Postão Central, das 7h00 às 17h00 com todo respaldo em relação aos medicamentos e foco na qualidade de vida.

Sobre a manifestação de Pocay, Júlio César disse que o prefeito está mal informado e que a associação nunca recebeu advertências sobre não cumprir plano de trabalho de quem quer que seja.

“Ele (o prefeito) fez uma live dizendo que há tempos nós não estamos cumprindo com o plano de trabalho. É mentira, ele está muito mal informado. Nós nunca fomos advertidos sobre isso, a associação é auditada pela Receita Federal e pelo Tribunal de Contas, todos os atendimentos realizados são informados diretamente ao SUS, basta verificar na base de dados que está tudo registrado lá. Para se ter uma ideia só nos primeiros 4 meses de 2022 foram 1977 pacientes atendidos na associação”, contestou Benato.

De acordo com Informações colhidas junto à associação a cada dia o número de pessoas acometidas de diabetes vem crescendo na cidade, a média de atendimento semanal tem girado em torno de 40 pessoas buscando orientações e assistência. Na última quarta-feira, quando o convênio foi encerrado e a associação permaneceu fechada, 25 pacientes passariam pelo ambulatório da entidade em consulta para terem acesso a receituário de insulina.

“Sem os medicamentos fornecidos pela ADO o que os pacientes irão fazer, se não tiverem dinheiro pra comprar e se medicar, a diabetes vai subir e podem até entrar em coma e ir parar na Santa Casa. Nós precisamos de um valor suficiente para manter os profissionais em atividade, médico, nutricionista, psicólogo, enfermeiros, além de materiais, aluguel da sede, todos os gastos necessários para manter toda estrutura de acolhimento e assistência que vinha funcionando a contento”, salientou o vice-presidente.

 

PREOCUPADOS, PACIENTES SE MANIFESTAM – Temerosos e com a expectativa de que a situação se complique com o fechamento da associação, alguns pacientes atendidos pela ADO expuseram à reportagem a aflição e o momento preocupante para quem precisa de atenção constante para o controle da doença.

 

“Eu utilizo bomba e isso é um insumo caríssimo e se a gente não tiver um suporte bom podemos acabar perdendo isso. Para mim a dificuldade maior será a retirada de medicamentos no posto de saúde, isso se conseguirmos ser atendidos. No meu caso específico tenho nível glicêmico muito instável, na mesma hora que às vezes estou caindo pelas ruas por falta de açúcar o nível está lá em cima, estou perdendo neurônios, esse é o meu problema. O que a gente mais sente com essa situação são aqueles que não têm como adquirir o medicamento, uma necessidade que a ADO supria (…) o papel principal da associação é dar atenção, cuidado, todo o suporte que não acho que teremos pelo SUS. O que me causa estranheza é o prefeito alardear que a cidade tem um bom atendimento na saúde, mas por outro lado o que está funcionando bem ele vai fechar. Além do mais se o valor repassado à associação fosse tão expressivo a gente até entenderia, mas é um valor pequeno para prefeitura. E outra coisa tem repasses do governo federal e estadual então esse dinheiro não sai exclusivamente da prefeitura, a meu ver esse retrocesso é em decorrência de questões políticas.” – CARLOS ROBERTO ESPERANÇA DE ARRUDA – BANCÁRIO APOSENTADO

 

 

“Há três anos quando descobri a diabetes da minha filha fui muito mal atendida no tal Postão, o funcionário disse para mim que se eu não quisesse ver minha filha morta era para irmos embora para Botucatu, porque aqui não tinha remédio e médico, além de 100 crianças esperando na fila para serem atendidas. Logo que fiquei sabendo da associação eu corri lá, e na mesma hora a minha filha foi atendida e continuava sendo atendida até hoje, mas, me diga o vamos fazer agora. Olha vejo que vai ser uma situação muito difícil pela frente, minha filha teria uma consulta hoje (4ª feira 1/6) e foi cancelada e agora eu não sei onde recorrer, para que médico levar os exames dela. A cada três meses ela faz os exames e passa pelos médicos da associação, sempre somos muito bem atendidas por todos lá. Ela passa por psicólogo, nutricionista e o médico, eu não tenho do que reclamar. E repito o que a gente vai fazer a minha filha é uma criança e ela necessita de insulina.”- JÉSSICA DOMINGOS DOS REIS – VENDEDORA

 

 

“Está me preocupando muito porque eu não vou ter onde recorrer, o único apoio que eu tenho é a Associação dos Diabéticos há mais 17 anos e desde o começo eu fui muito bem atendida, tudo funcionando muito bem. Eu uso bomba não tenho como parar de usar e ainda não sei onde pegar minhas receitas pra retirar a insulina, nós dependentes desse medicamento pra viver não podemos esperar. Tem que ter um pronto atendimento, uma coisa rápida para gente, na associação eu passo a cada dois meses e nunca faltou, o trabalho de todos da ADO é de muita responsabilidade. Como é que vai tirar uma coisa que faz bem para as pessoas e agora nos mandam procurar o Posto de Saúde, estamos com muitas incertezas, eu não sei quando vou passar no médico, não sabemos como vai ser isso, não explicaram nada. Tenho visto que em Ourinhos estão dando prioridade para muita coisa desnecessária, acho que tem que cuidar primeiro da saúde das pessoas. Eu não sei como vai ser entendeu, o prefeito fica postando aí negócio que arrumou isso que fez aquilo, vai fazer isso e aquilo, mas o que está dando certo ele quer desmontar, só nos resta protestar”. – NUCEÍ APARECIDA GOMES – BALCONISTA

 

 

ADO – Grupo de associados da ADO, membros da diretoria e assessoria jurídica tentaram audiência com o prefeito, que acabou não ocorrendo

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