terça, 29 de setembro de 2026
Publicado em 29 set 2026 - 17:15:09
Educadores explicam vantagens e limitações dos dois formatos e mostram como os objetivos impactam a escolha
Vagner Lima
Com a popularização de smartphones, tablets e leitores digitais, o hábito de ler deixou de estar necessariamente associado às páginas de papel. Hoje, livros impressos e e-books convivem na rotina de estudantes e leitores, cada um com características que podem favorecer diferentes experiências de leitura.
Mas, afinal, existe um formato melhor?
Segundo Henrique Barreto Andrade Dias, coordenador pedagógico de São Paulo (SP), mais importante do que estabelecer uma oposição entre papel e tecnologia, é entender que cada formato pode cumprir uma função diferente.
“Para um estudante que precisa compreender um conteúdo complexo, por exemplo, o ambiente de leitura e o nível de concentração podem fazer tanta diferença quanto o suporte escolhido”, explica Henrique.
Segundo ele, o suporte utilizado pode influenciar a maneira como as informações são processadas no cérebro. “Em atividades que exigem concentração prolongada, compreensão profunda e retenção de conteúdo, a leitura em papel tende a apresentar vantagens, enquanto as telas podem ser mais convenientes para leituras rápidas, mobilidade e conteúdos que incorporam recursos multimídia”.
Já na fase de alfabetização, o livro impresso tem papel insubstituível na construção da relação da criança com a linguagem escrita. “O contato físico com as páginas, a possibilidade de acompanhar a sequência das palavras, apontar para letras e ilustrações e manusear o livro ajudam a desenvolver noções de direção da leitura, organização do texto e correspondência entre a linguagem oral e a escrita. Além disso, a experiência compartilhada de um adulto lendo um livro físico com a criança pode favorecer a atenção, a interação e a criação de vínculos positivos com a leitura”, acrescenta Dias.

PRÓS E CONTRAS DO LIVRO IMPRESSO – Na opinião de Rayssa Rodrigues, professora de produção textual e literatura, de São Paulo (SP), entre os principais benefícios do livro impresso está a possibilidade de realizar uma leitura com menos estímulos concorrentes. Diferentemente de celulares, tablets e computadores, o livro físico não apresenta notificações, links, aplicativos ou outros elementos capazes de interromper a atenção.
Além disso, a disposição fixa das páginas pode ajudar o leitor a construir uma referência espacial do conteúdo, facilitando a localização de informações e a percepção do avanço da leitura.
Outro aspecto é a experiência sensorial. Folhear páginas, fazer anotações, marcar trechos e visualizar fisicamente o tamanho da obra são elementos que fazem parte da relação de muitos leitores com o livro.]
“O livro impresso oferece uma experiência bastante concreta de leitura e pode favorecer a concentração, especialmente quando o estudante precisa permanecer por mais tempo diante de um conteúdo. Ao mesmo tempo, ele ocupa espaço físico, pode ser mais pesado para transportar e é preciso também considerar o preço, que costuma ser maior do que a versão digital”, afirma Rayssa.
Quando se pensa na questão ambiental, os livros impressos exigem uma cadeia de produção, impressão, armazenamento e distribuição. A fabricação do papel utiliza recursos naturais, enquanto transporte e logística contribuem para aumentar o impacto ambiental da publicação.
PRÓS E CONTRAS DO LIVRO DIGITAL – Na opinião de Ana Cláudia Fidelis, coordenadora de projetos literários, de Campinas (SP), o livro digital apresenta como uma de suas principais vantagens a praticidade. Um único dispositivo pode armazenar dezenas ou centenas de títulos, permitindo que o leitor carregue uma biblioteca inteira sem o peso e o volume dos exemplares físicos.
Recursos como ajuste do tamanho da fonte, iluminação da tela, busca por palavras e acesso a dicionários também podem tornar a leitura mais adaptável às necessidades individuais.
“O digital não deve ser visto como inimigo da leitura. Ele amplia o acesso e oferece ferramentas que o livro convencional não consegue oferecer. O desafio é ensinar o estudante a utilizar esse ambiente de maneira intencional, reduzindo as distrações e escolhendo os recursos que realmente contribuem para a compreensão do conteúdo. Desta forma, a compreensão no digital será tão profunda quanto é na versão impressa”, explica.
Ana Cláudia acrescenta que a principal limitação está relacionada ao próprio ambiente digital. Em celulares e computadores, notificações, aplicativos, redes sociais e outros estímulos podem competir pela atenção do leitor. A rolagem contínua também pode alterar a percepção espacial do texto.
No contexto educacional, os recursos digitais podem ampliar a experiência do estudante: dependendo da plataforma, um livro pode incorporar vídeos, áudios, animações, mapas, infográficos, hiperlinks e outros objetos interativos.
Isso permite que determinados conteúdos sejam explorados por diferentes linguagens e pode ser especialmente interessante em atividades que combinam texto, imagem e recursos audiovisuais. Materiais didáticos digitais, por exemplo, já incorporam objetos como podcasts, vídeos, mapas clicáveis e infográficos interativos.
Por outro lado, quando se pensa na questão ambiental, os livros digitais eliminam etapas como impressão, encadernação, armazenamento físico e transporte de exemplares, o que pode reduzir o uso de papel e os impactos associados à logística.
Mas sua produção e leitura dependem de dispositivos eletrônicos, cuja fabricação utiliza matérias-primas e energia, além de gerar resíduos eletrônicos ao final de sua vida útil. Assim, o impacto ambiental do formato digital também depende de fatores como a durabilidade dos aparelhos, a frequência de uso e a matriz energética utilizada.
INDEPENDENTE DO FORMATO, O IMPORTANTE É LER – Juliana Nico, coordenadora pedagógica, de Barueri (SP), afirma que mais do que defender um formato ou outro, é preciso formar leitores capazes de se concentrar, compreender, interpretar, questionar e estabelecer relações com aquilo que leem. “O livro impresso e o digital podem coexistir e, quando utilizados de maneira consciente, ambos contribuem para aproximar crianças, jovens e adultos da leitura. No fim, o melhor formato é aquele que ajuda o leitor a manter o vínculo com o texto e transformar a leitura em conhecimento e experiência.”
Nesse cenário, as escolas devem ajudar os estudantes a desenvolver estratégias para diferentes situações de leitura, para lazer e para fins pedagógicos. “Um romance pode ser lido no formato que proporciona maior conforto; já um livro paradidático para projetos escolares, exige menos distrações e estratégias específicas de compreensão e, por isso, nesse caso adotamos apenas o formato físico”, finaliza Juliana.
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